Do lixão para a construção: o tijolo verde de Joseph Muita

Os tijolos sustentáveis de Joseph Muita provam que a circularidade é um filão rentável, que os empregos verdes têm estar na pauta das sociedades e deveriam servir de exemplo para o Brasil – que gera 82,5 milhões de toneladas/ano de resíduos sólidos urbanos, deposita inadequadamente 40% desse volume, recicla não mais que 4% e despeja todos os anos 690 mil toneladas de resíduos plásticos nos mares e oceanos.
Os bricks (blocos) de construção são compostos em 7% por vidro e em 97% pelo plástico retirado das ruas de Nairobi e processado em cinco máquinas idealizadas por Joseph Muita (foto: senivpetro on Freepik)

Por Ludmilla Duarte

(artigo publicado no jornal A Tarde, versão impressa, em 7 de Novembro de 2023)

O queniano Joseph Muita, 48 anos, tinha 26 quando decidiu conhecer o mundo. Passou uns meses no Canadá e daí foi visitar amigos na Alemanha. Gostou, entrou para a universidade Freie de Berlim como aluno de Engenharia Civil, e seis meses depois pulou para o curso de Jornalismo. Formou-se. Mas por que trocou de curso, Joseph? “Porque eu nasci engenheiro. Eu percebi que não precisava estudar para fazer o que eu instintivamente já sabia.”

Joseph passou os 20 anos seguintes entre Nairobi e Berlim. Cada vez que chegava na capital queniana, seu berço, ia ficando mais chocado com o crescimento dos lixões – e, especialmente, da poluição plástica. Instigou os melhores amigos alemães – todos feitos no semestre cursado de Engenharia -, a desenvolverem junto com ele uma tecnologia de construção que fosse também uma solução ambiental.

Assim nasceram os bricks (blocos) de construção compostos em 7% por vidro e em 97% pelo plástico retirado das ruas de Nairobi e processado em cinco máquinas idealizadas por Joseph. Elas trituram, misturam, lavam, condensam e prensam o plástico coletado nos aterros, lixões e córregos por meninos de rua e famílias extremamente pobres, de quem Joseph compra os dejetos poluentes ou troca por alimentos.

Cada tijolo produzido na Constructive Plastics Ltda, fundada por Joseph em 2021, pesa entre 2,5 a 4,8 kg – um aproveitamento de plástico nada desprezível para uma capital que gera de 2.000 a 2500 toneladas de resíduos todos os dias, segundo o Banco Mundial; faz destinação adequada de só 10% desse total, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA); e possui um dos maiores lixões não-regulamentados do continente africano, o lixão de Dandora.

Nesses dois anos, os tijolos sustentáveis vêm vencendo a desconfiança ao provar que permitem construções seguras. Seu projeto pioneiro foi na escola privada Darul Sunnah, em Nairobi: quatro salas de aula adicionais e um laboratório foram erguidos em seis semanas. Além de acessível, flexível e permitir um trabalho ágil, o material tem características climatizantes: torna o ambiente fresco durante o dia e mais aconchegante à noite, depois de absorver o calor diurno. Além da escola, contratos com um hotel e com o Poder Público também entraram no portifólio do eco-empreendimento.

Os tijolos sustentáveis de Joseph Muita provam que a circularidade é um filão rentável, que os empregos verdes devem estar na pauta das sociedades, e que o Brasil – que gera 82,5 milhões de toneladas/ano de resíduos sólidos urbanos, deposita inadequadamente 40% desse volume, recicla não mais que 4% e despeja todos os anos 690 mil toneladas de resíduos plásticos nos mares e oceanos -, precisa estar na linha de frente dessa economia que vai desacelerar o passo da mudança climática no planeta.

*Ludmilla Duarte é Jornalista, Especialista em Direitos Humanos, mestre em Política Pública e Administração pela Adler University (Vancouver, Canadá) e doutoranda em Política Ambiental na Universidade de Nairobi (Kenya). Ela também é Redatora SEO deste blog. Email: [email protected]

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