Mulher negra em posição de poder deveria ser a regra

A juíza Ketanji Brown Jackson, ex-defensora pública e advogada bem-sucedida em sua atuação no setor privado, leva uma vasta gama de experiência à Suprema Corte dos EUA.

Os Estados Unidos da América, “land of the free” (terra dos livres), aprovaram, na quinta-feira dia 7 de abril de 2022, via parlamento, a indicação do presidente Joe Biden da primeira mulher negra para a Suprema Corte do país: a juíza Ketanji Brown Jackson. O cargo é vitalício.

Jackson é uma juíza de segunda instância de 51 anos. Além de ser a primeira mulher negra, é apenas a terceira pessoa negra a assumir a mais alta posição da Corte; somente a sexta mulher na história da Suprema Corte dos EUA a assumir o cargo de juíza. Atualmente, mais três mulheres ocupam cadeiras no tribunal.

É inédito que quatro mulheres ocupem, ao mesmo tempo, espaço na Corte norte-americana, que conta com nove assentos vitalícios – e o fato de que, além da quase paridade, uma delas seja negra, merece toda comemoração.

Mas mesmo na terra dos livres, no país que se vangloria da sua democracia e até invade outras nações em nome dela, a equidade de gênero e raça é uma luta suada, vencida batalha a batalha – e mesmo com os avanços alcançados ainda representa desafios para as feministas. O fato de que somente em 2022 uma mulher negra tenha chegado à Suprema Corte é prova disso.

 No Brasil, o mercado de trabalho ainda está longe de espelhar uma paridade de gênero. De acordo com o mais recente levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em março de 2021, 54,5% das mulheres com 15 anos ou mais integravam a força de trabalho no país em 2019. Entre os homens, esse percentual foi 73,7%.

Do mesmo modo, pesquisa da empresa de recrutamento especializado Robert Half mostra que 62% das organizações ainda não têm políticas específicas para aumentar a participação de mulheres em cargos de liderança.

A velha máxima patriarcal de que à mulher cabe cuidar da esfera privada (casa, filhos, cozinha, higiene doméstica, alimentação da família) enquanto os homens se encarregam da esfera pública (é o provedor da casa e o tomador de decisões da sociedade) provou, durante a pandemia da Covid-19, que está viva.                      

No terceiro trimestre de 2020, constatou a Pnad Contínua do IBGE, 8,5 milhões de mulheres tinham deixado a força de trabalho na comparação com o mesmo período do ano anterior, uma queda de quase 15% de ocupação feminina no mercado.

O cuidado com outros integrantes do entorno familiar foi uma das principais razões detectadas pelos pesquisadores: as mulheres, em suma, se desligaram dos seus empregos para cuidar dos filhos em aulas online e dos membros idosos da família, mais vulneráveis aos sintomas do vírus. Além disso, muitas famílias optaram por demitir suas empregadas domésticas, uma mão de obra esmagadoramente feminina e negra.   

As desigualdades enfrentadas pelas mulheres no mercado de trabalho incluem diferenças em oportunidades de emprego, além de salários desproporcionais em comparação com homens com as mesmas responsabilidades.

Existe um movimento internacional em busca de inclusão e de redução das desigualdades de gênero. No relatório de 2021, “Beyond COVID-19: A Feminist Plan for Sustainability and Social Justice”, a ONU Mulheres enfatiza que uma das ações necessárias em todo o mundo para enfrentar as atuais crises interconectadas de empregos, cuidados e mudança climática que prejudicam a igualdade de gênero e ameaçam a sobrevivência das pessoas e do planeta é “promover a liderança das mulheres em todos os espaços institucionais: dos governos à sociedade civil e ao setor privado, e especialmente na resposta a crises”.

É inegável que dificuldades maiores de inserção no mercado de trabalho e em posições de protagonismo e liderança enfrenta a mulher negra: além de da discriminação pelo gênero, ela ainda enfrenta o preconceito racial.

Por conta disso, é fácil perceber que a mulher negra se encontra em desvantagem se comparadas com a mulher branca e, principalmente, com os homens brancos, arcando com todo o peso da discriminação racial e de gênero.

Por isso, a aprovação da juíza Jackson para a Suprema Corte do país mais poderoso do planeta deve ser motivo de muita celebração. Mas, por outro lado, Jackson não pode ser meramente a exceção que confirma a regra. Equidade de gênero e raça precisa, urgentemente, se tornar a regra.  

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