Sem ódio e sem armas, mulheres dão exemplo em Níger

Calamidade climática e confrontos políticos armados desembocaram em crise de refugiados em Níger, mas união liderada por mulheres em Ouallam é sucesso de superação e resiliência
Foragidas de conflitos e secas, mulheres locais e refugiadas se unem em Ouallam e garantem a segurança alimentar de toda uma comunidade (imagem: David Mark/Pixabay)

Enquanto ódios de todos os tipos dividem grupos populacionais, geram fissuras dentro de sociedades e cegam pessoas sobre os ganhos que a diversidade pode proporcionar em todos os espaços, a união de quase 500 mulheres em Níger, paupérrimo país do Oeste africano, prova a força da heterogeneidade humana na vitória contra as adversidades.

Em Ouallam, cidade cerca de 100 km ao norte da capital Niamey, somaram-se recentemente à população local levas de refugiados, boa parte mulheres com crianças. Eles fugiram dos conflitos políticos violentos e armados nos vizinhos países Mali e Nigéria, ou de guerras internas. São quase 250 mil seres humanos, segundo a ONU, em busca de paz e segurança física para seus filhos em cidades do Níger.

Não que Ouallam fosse um oásis de prosperidade econômica: a comunidade já enfrentava seu próprio flagelo de escassez de alimentos devido especialmente aos impactos das mudanças climáticas. Na região do Sahel, que envolve parte do oeste africano, as temperaturas subiram 1,5 vezes a média global, e os 4,4 milhões de pessoas deslocadas à força em toda a região estão entre as mais expostas aos efeitos devastadores de secas, inundações e redução de recursos.

Mas as resistências aos forasteiros em Ouallam se dissiparam quando, juntas, quase cinco centenas de mulheres locais e refugiadas subiram a bordo da iniciativa da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Elas hoje nutrem plantações em grandes faixas de terra usando irrigação por gotejamento para minimizar a evaporação e preservar os escassos recursos hídricos. Ao cultivar grandes áreas anteriormente degradadas perto da cidade, e plantar árvores, elas ajudam a evitar a desertificação que ameaça grande parte do país.

As fileiras de vegetais – batatas, cebolas, repolhos, pimentões, melancias, entre outros -, alimentam as famílias e colorem as planícies empoeiradas e ressequidas de Ouallam, ao lado dos xales brilhantes usados pelas mulheres que caminham entre elas verificando os canos de irrigação e adicionando água a qualquer espécie com aparência de sede.

Em paralelo, um outro grupo dessa heterogênea comunidade, formado de 200 homens e mulheres – refugiados, deslocados internos e moradores locais – fábrica de tijolos de solo estabilizado, que são feitos combinando solo com pequenas quantidades de areia, cimento e água antes de compactar e secar ao sol. Os tijolos interligados reduzem a necessidade de argamassa de cimento durante a construção, dispensando a queima de madeira escassa ou outro combustível, como normalmente é feito para tijolos de barro tradicionais. O material é destinado inclusive a construir casas para novos refugiados.

O exemplo em Niger mostra como pessoas de diferentes origens, línguas, religiões, convicções, juntas, podem ser motores de transformação. De uma cajadada, diversidade e meio ambiente saem ganhando em Ouallam, sem que um único tiro precise ser disparado.

Artigo publicado no jornal A Tarde em 21 de julho de 2022

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